quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ateliê hoje

MC LDN #5

Maria do Carmo Pontes, a correspondente avançada do b®og em Londres (com foto e micro-perfil aí na barra lateral), está em São Paulo trabalhando na Bienal Internacional de Arte e arranjou um tempinho para mandar a quinta coluna MC LDN. Lá vai:









When forms become alive.
Sobre os trabalhos de Marina Weffort e Pedro Barateiro.
A curiosidade leva um aprendiz a desafiar seu conhecimento e tomar para si os poderes de seu mestre. Ele pega os aparatos do mestre e se atreve brincar de Autoridade. Tudo vai muito bem até que as coisas saem do controle, reconduzindo o aprendiz à sua sabedoria limitada e à insignificância de sua existência. O enredo é familiar, a história da ambição presente em 10 entre 10 mitos sobre o poder, de Sísifo a Fausto. Mas a história que interessa aqui é mais ingênua, atuada pelo queridinho em quadrinhos da Disney, Mickey Mouse, em Fantasia. Ele só queria se livrar do serviço, e, para isso, encantou uma vassoura, que virou várias vassouras, para que ela transportasse a água da fonte para o caldeirão de seu mestre.
A operação performada nos trabalhos de Marina Weffort (que está em cartaz até o dia 4 de outubro na galeria Marilia Razuk) e do português Pedro Barateiro (com trabalhos na 29a Bienal de São Paulo, que abrirá a partir do dia 21 de setembro), se assemelha, em certa medida, a do aprendiz de feiticeiro. Ambos tomam como ponto de partida materiais cotidianos, como copos, lápis e cadeiras e, relocando-os e combinando-os com outros materiais improváveis, os denotam de outros significados. Weffort vem desenvolvendo uma série de estantes de madeira, onde uma variedade de materiais como xícaras, pedras e papéis de ponto são encaixados lado a lado, negociando sua existência com o objeto próximo, escapando num lugar entre a simbiose e a individualidade. Competem na mesma medida em que se aceitam mutuamente. Barateiro opera sobretudo no registro do acúmulo, enfileirando cadeiras numa base de concreto ou articulando uma porção de lápis, formando estruturas geométricas, sempre demovendo os objetos de sua funcionalidade. No entanto, no percurso eles não se calam, mas o feitiço se torna contra o feiticeiro na medida em que ganham novas e poderosas vozes. E impressiona como ambos os artistas conferem movimento aos seus trabalhos apesar deles serem intrínsicamente estáticos.
O ready-made contemporâneo carrega em si o seu contexto (como um caramujo, que Marina apresenta em uma de suas obras). Mas, para além dessa tradição que prioriza a forma sobre o conteúdo, defendendo numa dialética de relações improváveis que “the medium is message”, Weffort e Barateiro parecem na mesma medida enfatizar o conteúdo e a forma. A sensação é que as formas ganharam vida, como a vassoura do simpático Rato, mas com a vida vem também a vontade própria. Os objetos parecem aceitar com subordinação sua nova condição, mas o fato de terem se deslocado adverte: agora eles podem tudo. Claro que podem fazer o caminho de volta, retornando às funções que lhes foram designadas por nascença mas, uma vez atravessada a fronteira, não há Autoridade que os faça voltar.

Muzak Casa Gávea

Orquestra Imperial no Rival

Depois de Paris e Nova York, Tunga leva obra de arte monumental à Bahia

Saiu no Segundo Caderno d'O Globo de sábado passado esse perfil do Tunga. 

O artista plástico Tunga / Foto de Márcio Lima
Susana Velasco, enviada especial a Salvador

SALVADOR - Numa viagem a Bangcoc, na Tailândia, Tunga foi parar num mercado de amuletos bizarros, como lagartixas trançadas e excrementos petrificados, entre outras bugigangas que deram um susto no artista plástico:
- Parecia que eu tinha ressuscitado ali.
Tunga viu ali parte do repertório de objetos míticos que desde os anos 70 compõe a sua obra, criada a partir de elementos que se contaminam e se alimentam: tranças, ímãs, serpentes, rãs, pentes, bengalas, ossos, crânios, redes e cálices repletos de gel, líquidos e substâncias que remetem a fluidos corporais. Com essa extrema presença física dos materiais, o artista criou uma obra que, hoje aclamada internacionalmente, trata de questões transcendentais.
- A busca do anímico é uma forma segura de se falar de poesia e arte - afirma Tunga, aos 58 anos. - A arte que me interessa é a que articula os sentidos que não são passíveis de serem revelados por uma mediação crítica. O momento de calar é o momento em que a poesia fala.
Apesar de ressaltar o indizível de sua obra, Tunga fala sem pudor sobre ela, com sua multiplicidade de discursos. Em algumas horas, no intervalo da montagem da exposição "À luz de dois mundos", em Salvador, ele fala sobre Winnicott, Tristan Tzara, Newton, Santo Agostinho, San Juan de la Cruz, Freud. Sobre psicanálise, filosofia, História da arte, religião, literatura, arqueologia, antropologia, erotismo:

- Fazer arte é se interessar por tudo. O artista é uma espécie de clínico geral que lança mão dos seus especialistas quando necessário. Na hora de criar, me coloco na posição de sujeito múltiplo, como se dispersasse uma identidade. O que temo da postura da arte contemporânea é a presença excessiva de especialistas, que cria categorias empobrecedoras.
O interesse infindável se materializou numa obra inconfundível - sempre se vê Tunga numa obra de Tunga -, com a qual o pernambucano radicado no Rio se tornou um dos mais importantes e singulares nomes da arte brasileira. Tunga foi o primeiro artista contemporâneo a expor no Museu do Louvre, em Paris, onde cerca de quatro milhões de pessoas viram a monumental "À luz de dois mundos" sob a pirâmide do museu. A obra também já foi montada no P.S.1, centro de arte contemporânea do MoMA, em Nova York, e, inédita no Brasil, desde este sábado está exposta no Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador, no programa de escultura contemporânea Quarta Dimensão.
Ali, Tunga dispôs uma balança que equilibra, de um lado, um grupo de crânios, e, do outro, cabeças de esculturas (réplicas de peças do Louvre) presas por tipitis - cilindros usado pelos índios para espremer mandioca. Entre os dois mundos, um esqueleto negro sem cabeça deita numa rede. A obra ainda carrega objetos típicos do vocabulário de Tunga, como tranças e uma bengala e um pente gigantescos.
- Na arte contemporânea, o Tunga é aquele que consegue dar força poética, materializar visualmente com muita força conceitos muito abstratos, questões filosóficas. Ele usa elementos imediatamente comunicativos e consegue criar uma escala espetacular sem espetacularizar a obra - diz o crítico de arte Paulo Sergio Duarte, que montou uma apresentação com imagens da produção e da exposição de "À luz de dois mundos", exibida agora em Salvador.